(Liturgia do Quarto Domingo da Páscoa)
Todo os anos,
neste quarto domingo da Páscoa celebramos o domingo do Bom Pastor.
É uma celebração
que volta, mas Ele não volta porque, na verdade, nunca nos abandona! Pelo
contrário, está sempre pronto a sustentar-nos, está bem perto de cada um de
nós, conduzindo-nos de novo às pastagens da vida eterna e dando a cada um de
nós a certeza inabalável de sermos amados.
Isso porque,
desde o primeiro momento em que celebramos a luz da vitória pascal, no profundo
mistério de nossos corações, nasce a necessidade de amar e ser amado.
A necessidade de
amar e ser amado é o instinto primordial do homem, que o coloca em relação com
seu semelhante. É isso também que dá à nossa vida diversos sentimentos tais
como, paixões, desejos e expectativas etc.
O esposo, o pai,
a mãe, o filho ou o amigo, enfim, cada pessoa que enche a nossa vida de significado
é, ao mesmo tempo, sinal e limite de uma plenitude que todos aspiramos, mas que
só Deus pode nos dar.
Neste tempo da
Páscoa, depois de termos sido confrontados com o Ressuscitado que aparece aos
seus discípulos e enche de novo a “rede de suas vidas”, hoje Ele aparece a cada
um de nós através da imagem belíssima do Bom Pastor.
O Pastor e Suas
ovelhas nos reportam, de fato, a um mundo distante que, justamente porque está
longe, é trazido a nós para embelezar e a idealizar a vida.
Contudo, na
verdade, sabemos que a vida de um pastor da Palestina nas areias do deserto de
Judá não tinha nada de poético. Era rude, dura e às vezes, até mesmo perigosa.
No entanto, o
que nos interessa é captar e acolher a paz e a ternura que exalam das palavras
de Jesus num mundo subjugado pela lei do barulho e da agitação, da crise e da
dispersão.
Quando se está
acostumado a uma vida frenética, sujeita à tensões de todos os tipos, é difícil
não desejar uma vida diferente, governada por outros ritmos, onde se reencontra
uma paz que parece tão distante. A paz de quem sabe colocar-se em silêncio e escutar.
Nos poucos
versículos do Evangelho de hoje (Jo
10,27-30), fala-se, de fato, de vozes e de escuta e, portanto, celebra-se
indiretamente a importância do silêncio, levando-nos a pensar que sem o
silêncio não se pode escutar.
Numa sociedade
como a nossa, em que cada um é assediado quase a todo instante pelas palavras,
chamadas no celular, câmeras de vigilância, imagens e vídeos nas redes sociais
e mensagens, infelizmente, até mesmo na igreja e durante a missa, é preciso
redescobrir a importância do silêncio.
Principalmente
neste tempo em que a maior parte dos políticos, por exemplo, parece escutar
apenas a sua própria voz, muito mais até do que a voz dos apelos legítimos da
sociedade, das exigências da verdade e da justiça, é preciso lembrar o que, de
fato, significa deixar-se guiar por Quem, por amor a nós, não usa apenas
palavras, mas dá a Sua própria vida.
Significa fazer
a experiência de fazer tudo à nossa volta calar e deixar Deus falar. E, assim, é
possível descobrir que Deus nos revela a Sua voz e que fala diretamente ao
coração de cada um de nós, porque ama a cada um de modo pessoal.
É como a
experiência de Madalena, de Tomé, dos dois discípulos de Emaús, de Pedro e de
João; Ele fala a mim e me conhece.
O “conhecimento”
na linguagem bíblica não deriva de um processo puramente intelectual, mas de
uma “experiência”, de uma presença, necessariamente, fundada no amor.
O Bom Pastor não
nos conhece formalmente, mas faz experiência de nós, conosco, de mim, comigo.
Ele dá a mim a “vida eterna”, portanto, não só a vida física, nem somente a
vida além da morte, mas a participação na sua própria vida do Seu ser Filho de
Deus.
Eis aí a grande
mensagem da Páscoa, confirmada pela segunda leitura do Apocalipse (Ap 7,9.14b-17). Trata-se do Pastor que
se fez Cordeiro por amor a nós, ligado de tal modo à nossa humanidade, a ponto
de não poder abandoná-la jamais.
As suas mãos
estão unidas a nós muito mais fortemente do que estavam pregadas na cruz e
ninguém nunca poderá arrebatá-las, isto é, separar-nos Pai. “Ninguém as arrebatará da minha mão”:
Ninguém, nem os anjos, nem os homens, nem a vida, nem a morte, nem o presente,
nem o futuro, nada jamais poderá nos separar do amor de Cristo, confirma o
Apóstolo Paulo (Rm 8,38).
A força e a consolação
desta palavra absoluta, isto é, “ninguém”, é rapidamente ligada a “arrebatará”.
O verbo não está no presente, mas no futuro, indicando uma história completa,
longa, assim como o tempo de Deus.
O homem constitui
uma “paixão” para Deus, a ponto de atravessar a eternidade. “Ninguém as arrebatará da minha mão”; “ninguém
pode arrebatá-las da mão do Pai”. Trata-se das mãos que saíram do céu e que
lançaram os fundamentos da Terra, mãos do oleiro sobre a argila, mãos do
Criador sobre Adão adormecido para dar vida à Eva. São mãos e braços abertos
pregados na cruz para o abraço que nunca mais terá fim. Ninguém nos separará
dessas mãos!
São palavras de
coragem, sobretudo nos momentos de provação e de sofrimento. É a experiência
dos tantos testemunhos de fé de que fala o livro do Apocalipse.
Uma imensa
multidão proveniente de todos os povos. São testemunhos em pé, portanto, como o
Cordeiro, diante do Cordeiro, isto é, em relação com Cristo, envoltas em vestes
brancas, portanto, participantes da ressurreição e trazem palmas nas mãos,
sinal da vitória sobre o mal e da plenitude da vida.
Sublinhemos essa
particular “lavagem” das vestes dessa multidão. São vestes que permanecem
cândidas, brancas e puras, embora tenham passado pela cor vermelha do sangue do
Cordeiro que é Cristo. É o grande sinal de que, se nos entregamos, de fato e
totalmente a Deus, a grande provação da dor pode tornar-se uma porta para a
alegria da visão de Deus. Isso mesmo, como crianças nos agarrando fortemente
naquela mão que nunca nos deixará cair.
Quanto a isso é Santo
Agostinho que, no seu comentário sobre o Salmo 39 nos tranqüiliza e ao mesmo
tempo nos adverte: "O Senhor cuida
de ti, fique tranqüilo. Aquele que te fez te sustenta; não caia jamais da mão
do teu criador. Se caíres das mãos do teu Criador, te esmagarás. Sim, nas tuas
mãos entrego minha vida". Então, o próprio Deus virá ao nosso encontro
enxugando as lágrimas dos nossos olhos.
Que Desça,
então, sobre cada um de nós, essa antiga bênção irlandesa. "Que o caminho
se estenda sempre diante de ti! Que o vento sopre nos seus ombros e que o
orvalho molhe a relva sobre a qual pousas teus passos. Que o sorriso brilhe em
teu rosto e o céu te cubra de bênçãos. Que uma mão amiga possa enxugar as tuas
lágrimas na hora da dor. Que o Senhor Deus possa segurar-te na palma de Sua
mão, até o nosso próximo encontro”. (Frei
Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – promocaovocacional@inacianos.org.br – www.inacianos.org.br).
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