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Pároco Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA.


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sábado, 4 de outubro de 2014

SONHOS, DECEPÇÕES E A FORÇA DO AMOR DE DEUS

OS VINATEIROS HOMICIDAS
(Liturgia do Vigésimo Sétimo Domingo do Tempo Comum)


         
   "Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu...". Assim é aberta a Liturgia da Palavra deste Vigésimo Sétimo Domingo do Tempo Comum. É o primeiro versículo da primeira leitura (IS 5,1-7), extraída da profecia de Isaías.
            Esta declaração de amor, sugere ao nosso coração, o rosto de um Deus irremediavelmente apaixonado pela Sua criatura. Um Deus que canta o Seu amor pelo Seu povo. Sim, porque o amor é canto, ritmado pelo Espírito sobre as cordas do nosso próprio espírito. É paixão obstinada de Deus pelo seu amado, isto é, por cada um de nós.
            Na parábola proposta no Evangelho de hoje (Mt 21,23-43), Jesus retoma a imagem da vinha, presente no poema do Profeta Isaías, e a relê à luz da história da salvação. É a história de Deus e do Seu povo, numa relação de fidelidade e de recusa.
            A vinha é o povo de Israel, o patrão é Deus, os agricultores são os chefes do povo, os servos são os profetas e o filho é o próprio Jesus.
            No centro de tudo está o sonho de Deus, isto é, a Sua paixão, o Seu amor obstinado pela humanidade. Amor que se traduz no cuidado para com a vinha, circundando-a cuidadosamente com uma cerca, fazendo um lagar e construindo uma torre para vigiá-la e cuidar dela como um sentinela.
            O patrão da vinha faz todo o possível, não deixa nada ao acaso, ensinando-nos que o amor não se improvisa, mas é fruto de pequenos e constantes cuidados que fazem o ser amado perecer especial, desejado, simplesmente amado.
            Mas num certo momento somos "deslocados" pelo agir deste patrão que, depois de muito cuidado e muitos sacrifícios, confia a sua vinha a outros vinhateiros e parte para uma viagem. Quem de nós teria feito isso? Quem jamais haveria agido dessa forma?
            A atitude do patrão, quer nos ensinar que o tempo da 'ausência' do patrão é o tempo da responsabilidade, da nossa resposta a Deus, ao Seu ato de carinho para conosco, para que o nosso agir seja ao estilo do nosso Deus, isto é, cuidar do outro, sem possuí-lo. Porque o amor, quando é verdadeiro, gera horizontes de liberdade, espaços ilimitados nos quais é possível encontrar-se ou perder-se.
            No tempo oportuno, o patrão, depois de tanto cuidado e tanto trabalho, envia um servo à vinha para recolher os seus frutos. Porém, a tentativa logo falha. Os vinhateiros espancam o pobre servo que retorna
para casa agredido e de mãos vazias.
            As repetidas e obstinadas tentativas do patrão, que envia outros servos, obtém um resultado cada vez pior. Estes são espancados, rejeitados e até assassinados.
            A parábola deixa muito claro o fortíssimo contraste entre a ternura apaixonada do patrão, que planta e toma cuidado da vinha, e a fúria homicida dos agricultores, que fingem-se de servos, mas não são.     Estamos diante da história de Deus e do Seu povo. História de sonho de Deus, do Seu inigualável amor que não se desfaz nem mesmo diante das desilusões, da traição, da recusa por parte do povo e dos chefes religiosos, que continua a enviar os Seus profetas.
            Mas eis a segunda e mais dramática, reviravolta da cena. O patrão não extermina os vinhateiros rebeldes. Pelo contrário, envia-lhes o Seu próprio filho amado, o qual não se subtrai da mesma sorte dos outros servos enviados anteriormente.
            Ao fazer isso, o filho, enquanto unido na morte de todos as desconfortáveis testemunhas da verdade, tanto do passado e como futuro, revela com sua morte, os traços do inesperado e de novidades inéditas.        Jesus sobre a cruz não põe fim às contradições e às distorções da história, mas coloca-Se dentro e até o mais profundo dela. E ali, pregado no lenho da cruz, ilumina a história do mundo e dos homens, ao mesmo tempo em que se faz solidário com os mesmos, excluído com os excluídos, alcançando e abraçando a todos. Eis a "vingança" de Deus. Enviar o Seu Filho amado, o Seu único Filho, amar o homem obstinadamente, até à "loucura".
            Jesus na cruz, não cede à chantagem mesquinha de seus carrascos que gostariam de uma demonstração de força e poder da parte dele. Ele não desce da cruz, permanece ali. Não desce da Cruz, mesmo podendo fazê-lo. Permanece ali pregado, nu, indefeso e do lenho infame, revela ao mundo o verdadeiro e extremo poder da fraqueza, o poder "incômodo"  e a força do amor que desarma.
            Certamente, Deus poderia nos falar e nos dar o Seu amor de muitas outras maneiras. Contudo, não queria deixar espaço para interpretações erradas e mal-entendidos, pois uma coisa é usar palavras doces e reconfortantes. Outra, bem diferente, é pendurá-las com três pregos, suspensas entre o céu e a terra.

            E na Cruz, daquele corpo irreconhecível, resultado da barbárie humana, arado de flagelos, coberto pelas nossas culpas e pela tortura,  jorra o vinho novo, vinho da misericórdia que brota do lado traspassado de Cristo. Sangue derramado por nós e por todos, mesmo diante das decepções de um Deus que não desiste de amar. Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA - Missionário Inaciano - promocaovocacional@inacianos.org.br - www.inacianos.org.br