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Pároco Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA.


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sábado, 16 de abril de 2016

“NINGUÉM VAI ARRANCAR AS OVELHAS DAS MINHAS MÃOS”


(Liturgia do Quarto Domingo da Páscoa)

Todo os anos, neste quarto domingo da Páscoa celebramos o domingo do Bom Pastor.
É uma celebração que volta, mas Ele não volta porque, na verdade, nunca nos abandona! Pelo contrário, está sempre pronto a sustentar-nos, está bem perto de cada um de nós, conduzindo-nos de novo às pastagens da vida eterna e dando a cada um de nós a certeza inabalável de sermos amados.
Isso porque, desde o primeiro momento em que celebramos a luz da vitória pascal, no profundo mistério de nossos corações, nasce a necessidade de amar e ser amado.
A necessidade de amar e ser amado é o instinto primordial do homem, que o coloca em relação com seu semelhante. É isso também que dá à nossa vida diversos sentimentos tais como, paixões, desejos e expectativas etc.
O esposo, o pai, a mãe, o filho ou o amigo, enfim, cada pessoa que enche a nossa vida de significado é, ao mesmo tempo, sinal e limite de uma plenitude que todos aspiramos, mas que só Deus pode nos dar. 
Neste tempo da Páscoa, depois de termos sido confrontados com o Ressuscitado que aparece aos seus discípulos e enche de novo a “rede de suas vidas”, hoje Ele aparece a cada um de nós através da imagem belíssima do Bom Pastor.
O Pastor e Suas ovelhas nos reportam, de fato, a um mundo distante que, justamente porque está longe, é trazido a nós para embelezar e a idealizar a vida.
Contudo, na verdade, sabemos que a vida de um pastor da Palestina nas areias do deserto de Judá não tinha nada de poético. Era rude, dura e às vezes, até mesmo perigosa.
No entanto, o que nos interessa é captar e acolher a paz e a ternura que exalam das palavras de Jesus num mundo subjugado pela lei do barulho e da agitação, da crise e da dispersão.
Quando se está acostumado a uma vida frenética, sujeita à tensões de todos os tipos, é difícil não desejar uma vida diferente, governada por outros ritmos, onde se reencontra uma paz que parece tão distante. A paz de quem sabe colocar-se em silêncio e escutar.
Nos poucos versículos do Evangelho de hoje (Jo 10,27-30), fala-se, de fato, de vozes e de escuta e, portanto, celebra-se indiretamente a importância do silêncio, levando-nos a pensar que sem o silêncio não se pode escutar.
Numa sociedade como a nossa, em que cada um é assediado quase a todo instante pelas palavras, chamadas no celular, câmeras de vigilância, imagens e vídeos nas redes sociais e mensagens, infelizmente, até mesmo na igreja e durante a missa, é preciso redescobrir a importância do silêncio.
Principalmente neste tempo em que a maior parte dos políticos, por exemplo, parece escutar apenas a sua própria voz, muito mais até do que a voz dos apelos legítimos da sociedade, das exigências da verdade e da justiça, é preciso lembrar o que, de fato, significa deixar-se guiar por Quem, por amor a nós, não usa apenas palavras, mas dá a Sua própria vida.
Significa fazer a experiência de fazer tudo à nossa volta calar e deixar Deus falar. E, assim, é possível descobrir que Deus nos revela a Sua voz e que fala diretamente ao coração de cada um de nós, porque ama a cada um de modo pessoal.
É como a experiência de Madalena, de Tomé, dos dois discípulos de Emaús, de Pedro e de João; Ele fala a mim e me conhece.
O “conhecimento” na linguagem bíblica não deriva de um processo puramente intelectual, mas de uma “experiência”, de uma presença, necessariamente, fundada no amor.
O Bom Pastor não nos conhece formalmente, mas faz experiência de nós, conosco, de mim, comigo. Ele dá a mim a “vida eterna”, portanto, não só a vida física, nem somente a vida além da morte, mas a participação na sua própria vida do Seu ser Filho de Deus.
Eis aí a grande mensagem da Páscoa, confirmada pela segunda leitura do Apocalipse (Ap 7,9.14b-17). Trata-se do Pastor que se fez Cordeiro por amor a nós, ligado de tal modo à nossa humanidade, a ponto de não poder abandoná-la jamais.
As suas mãos estão unidas a nós muito mais fortemente do que estavam pregadas na cruz e ninguém nunca poderá arrebatá-las, isto é, separar-nos Pai. “Ninguém as arrebatará da minha mão”: Ninguém, nem os anjos, nem os homens, nem a vida, nem a morte, nem o presente, nem o futuro, nada jamais poderá nos separar do amor de Cristo, confirma o Apóstolo Paulo (Rm 8,38).
A força e a consolação desta palavra absoluta, isto é, “ninguém”, é rapidamente ligada a “arrebatará”. O verbo não está no presente, mas no futuro, indicando uma história completa, longa, assim como o tempo de Deus.
O homem constitui uma “paixão” para Deus, a ponto de atravessar a eternidade. “Ninguém as arrebatará da minha mão”; “ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai”. Trata-se das mãos que saíram do céu e que lançaram os fundamentos da Terra, mãos do oleiro sobre a argila, mãos do Criador sobre Adão adormecido para dar vida à Eva. São mãos e braços abertos pregados na cruz para o abraço que nunca mais terá fim. Ninguém nos separará dessas mãos!
São palavras de coragem, sobretudo nos momentos de provação e de sofrimento. É a experiência dos tantos testemunhos de fé de que fala o livro do Apocalipse.
Uma imensa multidão proveniente de todos os povos. São testemunhos em pé, portanto, como o Cordeiro, diante do Cordeiro, isto é, em relação com Cristo, envoltas em vestes brancas, portanto, participantes da ressurreição e trazem palmas nas mãos, sinal da vitória sobre o mal e da plenitude da vida.
Sublinhemos essa particular “lavagem” das vestes dessa multidão. São vestes que permanecem cândidas, brancas e puras, embora tenham passado pela cor vermelha do sangue do Cordeiro que é Cristo. É o grande sinal de que, se nos entregamos, de fato e totalmente a Deus, a grande provação da dor pode tornar-se uma porta para a alegria da visão de Deus. Isso mesmo, como crianças nos agarrando fortemente naquela mão que nunca nos deixará cair.
Quanto a isso é Santo Agostinho que, no seu comentário sobre o Salmo 39 nos tranqüiliza e ao mesmo tempo nos adverte: "O Senhor cuida de ti, fique tranqüilo. Aquele que te fez te sustenta; não caia jamais da mão do teu criador. Se caíres das mãos do teu Criador, te esmagarás. Sim, nas tuas mãos entrego minha vida". Então, o próprio Deus virá ao nosso encontro enxugando as lágrimas dos nossos olhos.

Que Desça, então, sobre cada um de nós, essa antiga bênção irlandesa. "Que o caminho se estenda sempre diante de ti! Que o vento sopre nos seus ombros e que o orvalho molhe a relva sobre a qual pousas teus passos. Que o sorriso brilhe em teu rosto e o céu te cubra de bênçãos. Que uma mão amiga possa enxugar as tuas lágrimas na hora da dor. Que o Senhor Deus possa segurar-te na palma de Sua mão, até o nosso próximo encontro”. (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – promocaovocacional@inacianos.org.brwww.inacianos.org.br). 

sábado, 5 de março de 2016

ALEGRAI-VOS! NOVO COMEÇO – VIDA NOVA!

(Liturgia do Quarto Domingo da Quaresma)

O título deste quarto domingo da Quaresma poderia ser: "Começar uma vida nova". "Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo!", proclama são Paulo na segunda leitura aos Coríntios (2Cor 5,17-21).
O filho pródigo do Evangelho de Lucas (Lc 15,1-3.11-32) começa uma vida totalmente nova, depois de ter recebido o perdão total e incondicional do Pai misericordioso.
Na primeira leitura (Js 5,9a.10-12) o povo de Israel também começa uma aventura novíssima, depois da entrada, tão esperada, na terra prometida.
A palavra início, princípio ou começo é de grande importância na bíblia. É a primeira palavra da Escritura: “No princípio Deus criou o céu e a terra”, como também a primeira palavra do Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo”, e de São Marcos, que começa exatamente assim: Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”.  
O início de qualquer coisa nova é, geralmente, acompanhado de emoções contrastantes. De um lado há o temor de deixar um caminho ou uma experiência antiga para começar um caminho ou experiência nova. Neste caso, sabe-se o que está perdendo ou deixando, mas não se sabe o que esperar.
Por outro lado, há o entusiasmo da novidade, do diferente. Na verdade o mundo é bonito, justamente, porque é diferente. Graças a Deus a vida cristã não é feita apenas de eventos que se repetem, mas é marcada profundamente pela novidade. Portanto, a novidade é a condição fundamental que nos define como cristãos: Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova”!
A Palavra de Deus hoje nos ajuda a compreender que a novidade não deve nos causar medo, porque o futuro está nas mãos de um Pai amoroso e misericordioso, como o pai do jovem do Evangelho de hoje.
Quando se inicia uma nova experiência é importante ter em mente que é nova, isto é, diferente do passado! É uma oportunidade totalmente original, oferecida para caminhar com esperança e alegria rumo ao futuro.
A Palavra de Deus é dinâmica, não estática. É a própria Palavra que nos ensina que não devemos ter medo das coisas novas, pois a novidade não é conservadora, mas nos chama a progredir e, portanto, é progressista. Significa dizer, portanto, que exorta o homem a não ter medo de enfrentar a novidade, e o desafia a não refugiar-se no passado, mas a caminhar alegre na direção do futuro, preparado por Deus, para nós. 
O mundo velho desapareceu”, anuncia São Paulo aos novos batizados de Corinto. A recomendação é para que os cristãos não busquem refúgio, nem se instalem num mundo e numa condição que não deve mais fazer parte das suas vidas! É preciso ir adiante!
O maná acabou no dia seguinte para os israelitas que iniciaram a sua nova vida na terra prometida e “naquele ano começaram a comer os frutos da terra de Canaã”. O maná pertence ao passado e, de agora em diante, devem experimentar e saborear coisas novas, frutos diferentes.
Assim como para o filho arrependido que volta para a casa paterna, o alimento é um verdadeiro banquete de festa! Tudo novo, a lavagem dos porcos agora é coisa do passado!
E começaram a festa!”, nos diz a parábola do Pai Misericordioso. Aqui não se lembra mais o pecado do passado. Há uma nova vida para viver, na casa do Pai. Uma vida amadurecida pela experiência do distanciamento. É um novo começo, outra chance, oportunidade para recomeçar o caminho andando com passos diferentes, mesmo que o irmão mais velho não acredite que isso seja possível. Não importa! Deus acredita em nós, e isso basta!
Este é o estilo da novidade de Deus. Tudo se desenrola dentro dos parâmetros desse estilo. Os elementos psicológicos humanos, como costuma acontecer, estão em contraste com a lógica de Deus.
O Pai perdoa de verdade e faz tudo novo a partir do seu perdão. Não se lembra mais do pecado do homem e o convida a recomeçar, oferecendo-lhe a possibilidade de dar início a uma vida nova, mas com o compromisso inadiável de dar um passo importante, que consiste em aceitar o amor incondicional de Deus, o Pai. Aqui descobrimos que é possível se tornar uma pessoa diferente, lembrando que até mesmo a viagem mais longa e distante começa com um primeiro passo.
As leituras desta missa nos levam a analisar o passado, o presente e o futuro, ou o antes, o hoje e o depois da nossa vida, esclarecendo o significado do termo novidade, segundo a lógica de Deus.
Na primeira leitura o antes, ou o passado é constituído pela escravidão do Egito, marcado pela humilhação, pelo sofrimento e pela falta de liberdade. O povo de Israel faz um duro caminho de purificação no deserto. Caminho este que preparou os seus corações para se tornarem um povo novo.
Para Israel, que carrega o fardo desse passado, Deus diz: “Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. Neste ponto, Deus marca pontualmente o tempo. “Hoje”, isto é, no tempo do cumprimento da promessa.
A experiência do começo de uma vida nova é acompanhada pela celebração da Páscoa, pela primeira vez, na condição de povo livre. É por isso que a novidade é celebrada com um rito, na presença do Senhor.
O depois, ou seja, o futuro de Israel, começa no dia seguinte: No dia seguinte à Páscoa, comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia”. 
O mesmo dinamismo aparece na segunda leitura. “O mundo velho desapareceu”! Não existe mais, e por isso mesmo, não devemos mais, sequer, olhar para ele. Paulo pode proclamar isso aos coríntios porque ele próprio fez essa experiência, passando de perseguidor da Igreja a alguém que foi perdoado e regenerado para começar uma vida nova.              O hoje é marcado por um convite a acolher gratuitamente o amor de Deus, permitindo a reconciliação, a volta e reaproximação que Deus tanto espera de nós!
Como o Pai é livre na doação do Seu amor, o Filho é livre no acolhimento, e o Espírito é livre na comunhão, assim os cristãos devem ser livres na aceitação da novidade de Deus: “Deixai-vos reconciliar com Deus”! Nestas palavras, que dizem respeito ao hoje do cristão, há quase uma passividade. O que devo fazer? Deve deixar-se amar. Deve permitir a Deus que o reconcilie com Ele.
O depois, isto é, o futuro, do qual fala a segunda leitura é o envio ao mundo como embaixadores de uma vida nova, como pessoas que falam como se fossem a voz do próprio Deus no meio de nós, convidando os povos a acolherem o amor regenerador de Deus. 
O Evangelho também nos mostra um ontem, um hoje e um amanhã.
O pecado foi concebido e preparado, poderíamos até dizer que foi premeditado, pelo filho pródigo. Cultivado na consciência, esse pecado o levou a desejar a morte de seu pai e o conduziu a uma vida corrompida.
Mas a decisão de pedir perdão ao pai indica o divisor de águas no texto: é o hoje da graça, que o faz começar uma vida nova.
O depois, o futuro, não conhecemos, porque o Evangelho não nos fala. Podemos imaginar que tenha sido caracterizado por uma vida diferente, em companhia do irmão mais velho, que não tinha compreendido nada do estilo e da lógica do seu Pai.
Mas, na verdade, o que importa é fazer a experiência pessoal de ser perdoado e regenerado para uma vida nova, e se os outros não acreditam, não importa. O que importa, de fato, é que o Pai acredita!
O dinamismo da Palavra de Deus nos interpela de modo pessoal. Nós também temos um passado, um presente e um futuro. Há os que tem pouco passado e muito futuro, como as crianças e os jovens, por exemplo. Há os que tem muito passado e pouco futuro, como os idosos. Todos, porém, temos o hoje da graça, que é próprio deste tempo em que nos preparamos para celebrar a ressurreição de Jesus, que nos insere numa perspectiva de vida totalmente nova.

A Quaresma nos recorda que a graça de Deus trabalha nos corações de todos os homens e mulheres e a todos é oferecida a possibilidade da conversão. Rezemos para que todos nós possamos acolher hoje o amor incondicional de Deus, que nos ajudará a dar o primeiro passo para um amanhã, na alegria do novo começo de uma vida nova! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – www.inacianos.org.br). 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

TENTAÇÕES: CONSUMO-PODER-PRESTÍGIO OU FIDELIDADE À PALAVRA DO PAI?

Muitas vezes temos uma idéia sombria e triste da Quaresma. Na verdade, deveríamos nos ater à finalidade desses quarenta dias e nos preparar para a alegria da Páscoa, a festa da vida, através da qual Jesus, com Sua Paixão e Ressurreição, anuncia a Boa Notícia da vitória sobre a morte.
Vista dessa maneira, a Quaresma como preparação para essa celebração não poderia jamais ser motivo de tristeza!  É preciso lembrar que viver, de fato, significa, antes de tudo, lembrar-se do essencial que nos dá a vida.
A Quaresma nos oferece justamente essa oportunidade para que não nos acomodemos no desânimo. Mesmo que nos leve a descobrir nossas fraquezas e a difícil caminhada rumo à conversão. Pelo contrário, ela nos motiva a colocar-nos em movimento, em “travessia”, sempre.
Trata-se de compreender que esse movimento tem o objetivo de nos fazer sair de tudo aquilo que nos prende e imobiliza e de tudo o que nos torna escravos.
Na primeira leitura (Dt 26,4-10), a experiência de fé do povo de Israel no Antigo testamento é marcada por duas experiências extraordinárias.
A primeira experiência traz à sua memória o fato de que “O Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido, no meio de grande pavor, com sinais e prodígios”.
A segunda experiência lembra como o Senhor fez isso, levando-os a reconhecer: “Conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel”.
 Trazer à memória e lembrar-nos dessa vida hoje então, neste tempo significa, primeiramente, fazer um movimento para fora, isto é, um sair de tudo aquilo que nos mantém escravos. Significa retornar ao essencial para redescobrir a beleza e a verdade da nossa própria vida.
Este tempo, portanto, é o momento propício para que nos perguntemos o que, de fato, é essencial, o que dever ter mais importância e relevância, como também o que é secundário em nossa vida. Isso nos levará a redescobrir o que e/ou quem buscar e adorar e a quem, a que não prestar culto nesta vida!
 Os quarenta anos no deserto, a saída da escravidão das mãos do Faraó, certamente permaneceram no coração dos judeus. O deserto era um caminho, uma jornada capaz de levá-los à exaustão, mas igualmente intenso quanto à liberdade para a qual os conduzia.
Os judeus sabiam disso, mas nós também sabemos que com o passar dos anos podemos passar de caminheiros, aventureiros e estrangeiros, a pessoas sedentárias, acomodadas.
Corremos o risco de ceder aos condicionamentos e circunstâncias, de ser seduzidos pelas coisas, pelo sucesso e pelo poder, ao ponto de nos tornarmos escravos de novos “faraós”. 
Com isso, fica claro que o primeiro passo no caminho do deserto quaresmal proposto pelo Evangelho deste primeiro domingo da quaresma é, sem dúvida, assumir a caminhada conscientes de que também somos expostos às tentações.
Lucas (4,1-13) narra as tentações de Jesus que, no início da sua vida pública, isto é, da Sua missão, é colocado à prova no deserto, tendo sido para lá conduzido pelo Espírito.
A tentação, em si, não é algo que tem, necessariamente, a ver com o pecado. Toda a nossa vida é marcada por provas e tentações. São situações em que temos que agir nas tensões e que exigem de nós uma força e energia que, na maioria das vezes, parecem exceder as nossas forças.
Contudo, são situações necessárias ao nosso crescimento, nas quais, através da liberdade, podemos pôr na balança o valor das escolhas que fazemos e das relações que vivemos. Aliás, é no esforço e na luta mesmo que é possível experimentar o valor de um amor, de uma amizade, da palavra dada.
Portanto, uma tentação pode se tornar oportunidade para trazer verdade à nossa vida, ensinando-nos a compreender o que, de fato, é importante e tem valor. Mas pode também ser apenas o momento e a situação na qual a nossa liberdade será enganada. Se assim for, não passará de ocasião para fazer escolhas erradas. 
Mas, qual é a tentação de Jesus no deserto e que acompanha toda a sua missão? Não é demais fazer uma ligação entre o texto das tentações e o Batismo que Jesus, no Rio Jordão, que celebramos há pouco tempo.
No Batismo Jesus é proclamado Filho de Deus: “Este é o meu filho amado, escutai-O”! Jesus recebe do Pai a grandeza e o fim da Sua missão: é Filho de Deus!
Porém, o Pai não lhe diz como deverá realizá-la, porque este dom precisa ser realizado na Sua liberdade. Deve passar pela prova da liberdade. Portanto, a prova pela qual Jesus passa é ter que decidir como realizar a Sua missão de Filho de Deus!
Muitas vezes pensamos que Jesus, pelo fato de ser Deus, não teve que esforçar-se para ser fiel ao projeto do Pai que O levou a morrer pregado numa cruz. Mas, não é verdade!  Jesus é verdadeiro Deus é verdadeiro homem. Por isso dizemos na liturgia eucarística “Estando para ser entregue e abraçando livremente a paixão...”.
Jesus, então, vai ao deserto para “aprender” a ser Filho; deve aprender, como homem, a confiar e a dizer sim ao projeto do Pai!
Nós também recebemos um grande dom de Deus que é a vida, a nossa vocação. No batismo nos tornamos filhos de Deus, mas tudo isso precisa se realizar através da nossa liberdade, do nosso sim à vontade do Pai, da confiança absoluta no Pai!
Podemos dizer que a prova, a tentação maior a que a nossa vida de fé é exposta, isto é, a tensão que nos acompanhará pelo resto de nossas vidas, assim como aconteceu com Jesus, será crer, confiar e decidir-se continuamente por Ele, porque acreditamos que é justamente isso que constitui a nossa humanidade e a nossa vocação!
Meditando o Evangelho das tentações podemos captar mais profundamente alguns detalhes.  Primeiramente, a maneira como o diabo se apresenta. O texto deixa claro que ele não se apresenta como um monstro feio com chifres e com um tridente na mão. Não! O diabo nunca se apresenta como adversário, mas, como um colaborador.
Foi assim que se apresentou a Jesus. Isto é, chega como um conselheiro, um fiel colaborador, alguém confiável e que quer ajudar.
Como é que começa mesmo a primeira tentação? “Se és o Filho de Deus...”. O diabo não duvida da filiação divina de Jesus. Pelo contrário. É como se dissesse a Jesus “já que tu és o Filho de Deus, demonstra as tuas habilidades, mostra do que és capaz, escolhe o teu próprio projeto...”. É como se dissesse a cada um de nós, “você deseja realizar-se como homem... como mulher? Eu te dou uma mão... você está programando abraçar a vida matrimonial, a vida consagrada, sacerdotal? eu posso te dar uma mão, posso ajudar a fazer um projeto melhor...”. Os objetivos, aparentemente, são sempre nobres, mas é um jogo que se joga com os “seus meios”, nada nobres.
É na elaboração das imagens, dos ideais e dos projetos das nossas vidas que o diabo gosta de interferir com propostas coloridas que nos desviam do projeto, do desenho e do estilo de Deus.
Aliás, um dos maiores perigos de hoje com relação à nossa vida e à nossa vocação, é o perigo de pintá-los com tons apenas humanos, mundanos, com base na exclusiva satisfação das nossas necessidades de consumo, de posse e de reconhecimento. As três tentações às quais Jesus foi exposto no texto de hoje.  
A grande artimanha do diabo é, então, exatamente fazer-nos acreditar que toda a nossa vida se resume a um pouco de pão (consumo), ao poder (posse) e ao prestígio (reconhecimento), fazendo-nos esquecer da nossa fome do Alto, do Céu, da necessidade que o ser humano tem do infinito de Deus, e de que o que nos realiza é a verdade e a beleza!
Jesus no deserto vence as tentações por cada um de nós também, indicando-nos o caminho para que também as nossas provações e tentações se transformem em ocasiões e oportunidades, mesmo que duras e dolorosas, para fazer com que a vida e a vocação de cada um de nós seja de acordo com a Sua Palavra e a Sua vontade.

Que neste tempo o Senhor nos conceda a graça de “sair” das nossas tentações e provações com a força libertadora da Sua Palavra. Que esta Quaresma seja uma excelente e oportuna ocasião para uma nova, rica e feliz caminhada. Afinal, não só de pão, de poder e de fama vive o homem! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano –www.inacianos.org.br). 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

PESCAR É PRECISO

(Liturgia do Quinto Domingo do Tempo Comum)
Como a um compromisso ao qual não se pode faltar, hoje nos encontramos nas margens de um lago. Lembro que já estivemos nas margens do Rio Jordão, para sermos imersos com Jesus no batismo, para experimentar o que significa ser envolvidos pela água da Sua Graça.
Mas neste domingo, a “água”- graça se expande, dando aos olhos e ao coração um dos mais belos sentimentos que é contemplar um lago.
O lago, de fato, por maior que seja se assemelha a nós. Quero dizer, é limitado como nós. Não é como o mar, um oceano cujos limites são desconhecidos, provocando sempre em nós certo temor diante do infinito. É um lago, sinalizando o nosso limite.
Contudo, aquele lago de Genesaré torna-se um ponto de partida para todos. Até mesmo Jesus, deixando a montanha, lugar de encontro com Deus, desce ao nível do lago, isto é, ao nível da nossa humanidade limitada.
Desce hoje, neste Quinto Domingo do Tempo Comum, rodeado por uma grande multidão para encontrar-se conosco.
Aquele lago era tudo para os pescadores. Significava o tempo, que era na maioria das vezes nele vivido, dele vinha o seu cansaço, mas também a sua alegria, suas esperanças, e também, não raro, redes vazias, oração, silêncio... diante do que ‘negava” aos pescadores.
A barca de Simão, juntamente com a de Zebedeu, já é em si, a imagem de nossas vidas, que se desequilibram entre as águas, nem sempre tranqüilas, deste mundo. 
É nessa nossa “normalidade” cotidiana que Jesus chega. É preciso pressupor que os primeiros discípulos já eram conhecidos por Jesus e que, na verdade, o chamado que fez a cada um deles não foi de improviso. Dois deles, André e João, já eram discípulos do Batista, como nos refere o quarto Evangelho. Depois, como também nos conta São Lucas no capítulo 4, eles O tinham escutado na sinagoga, no sábado, O tinham visto operar milagres. Simão O tinha acolhido na sua própria casa, dando-Lhe hospitalidade como se fosse da própria família.
Na normalidade daquele lugar, onde tudo era muito comum, Jesus já havia alterado os hábitos dos primeiros discípulos. Mas ninguém poderia, ainda que por um momento, distraí-los ou tirá-los da sua vida real, isto é, da pesca que era o seu meio de vida. Ali, se não houvesse o que pescar, não seria possível sobreviver.
Na barca da nossa vida, Jesus sai para anunciar a Palavra. A barca de Simão, e também a nossa vida torna-se, portanto, um “púlpito” todo particular, no qual a Palavra de Deus ressoa forte porque está encarnada em Jesus de Nazaré, que está ali em pessoa.
A Palavra “sacode” o nosso cotidiano ainda hoje, fazendo com que “barcas” e “redes vazias”, fiquem plenas da Sua Graça.
Nós também temos experiência de noites infrutíferas, noites “em que nada pescamos”. Pode também acontecer conosco de termos que "recolher os restos" dos nossos dias cheios de compromissos, porém, vazios no seu mais profundo interior. Pode acontecer também conosco ter que “lavar as nossas redes”, sinal dos nossos esforços e das nossas lutas, muitas vezes, em vão, pensando: “hoje o lago não está pra peixe”, e concluir então que é inútil voltar a pescar! A vida do ser humano sempre foi e é assim, como o lago. Se a água e o tempo são generosos, é possível trabalhar bem, mas se o lago se mostra “avarento”, se há uma crise, surgem, então, os dias difíceis.
Jesus parece não compreender esse cansaço dos discípulos, assim como também os nossos desânimos diante das frustrações nas lutas e “pescarias” da nossa vida. Ele, carpinteiro de profissão, nos pede para ir adiante, para lançar as redes para águas mais profundas!
Neste domingo, novamente, iniciando mais uma semana, somos convidados a colocar-nos em movimento, mesmo se já estávamos prontos a largar “as redes”, a abandonar a luta, a voltar pra casa de mãos vazias.
Simão parece aceitar o desafio, mas assim como nós, talvez tivesse pensado: “Só tu, Jesus, pareces não compreender o nosso cansaço. Parece, no mínimo, estranho que Ele, que não lida com pesca, com redes e com peixes, porque entende mais de carpintaria, nos peça para ir para águas mais profundas e lançar as redes...
Se dermos atenção à Sua Palavra, eis o mérito de Pedro, bastará uma palavra, depois Ele fará o resto, isto é, aquilo que não depende de nós! Contudo, o que depende de nós, cabe à nós realizar! O resultado é a quantidade enorme de peixes, as redes quase rompidas, a ajuda dos companheiros! A nossa vida, que experimenta tantas vezes o vazio, estará, então, repleta d’Ele.
No Evangelho de hoje (Lc 5,1-11) Lucas, diferente dos outros sinóticos, coloca a sua atenção na pessoa de Pedro. É ele o protagonista que, diante do milagre, se sente indigno de estar próximo de Jesus. De fato, a presença de Jesus foi como uma luz que permitiu a Pedro confessar, com humildade, a sua condição de criatura humana, pecadora, de pessoa necessitada de salvação, limitada, como o lago.
Como escreve Santa Terezinha: “Talvez, se tivesse apanhado algum peixinho Jesus não tivesse feito o milagre; mas não havia nada, assim, Jesus encheu rapidamente a sua rede, de modo que ela quase rompeu.
Eis, portanto, o estilo de Jesus. É capaz de dar a abundância de Deus, mas espera um coração humilde, disposto a atender e obedecer a Sua Palavra!”Com isso, concluímos que Pedro está na rede de Cristo. Isto é, a verdadeira pesca foi realizada por Jesus.
 A nós resta confiar abandonando tudo para abandonar-nos no Tudo! Neste ponto Jesus dá a promessa: Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens!” Eis aqui uma palavra plena do sentido do que Ele mesmo acabava de realizar!
O sentido mais próximo da frase no texto original grego, quanto à promessa de Jesus a Pedro é: “de hoje em diante irás "pescar" homens para que se mantenham vivos.
Na verdade, a expressão aqui quer ser sinal de uma confiança de Jesus em Pedro, paradoxalmente maior do que a confiança que Pedro havia tido em Jesus, momentos antes.
Simão, e nós juntamente com ele, não está à altura deste chamado, provavelmente nem compreende o que significa, mas confia na Palavra. Sabe obedecer, ainda que entenda mais de pesca do que o Mestre, ainda que tivesse todos os argumentos para não obedecê-Lo e voltar para casa sem ter lançado, mais uma vez, as redes. Com os outros, está pronto a deixar tudo para seguí-Lo.
O “tudo” de Pedro não é nada diante do “Tudo” de Cristo. Pedro, como muitos outros antes dele, até mesmo Maria, acolhe o “não temas” e está pronto para ir, para caminhar, confiante.  Ainda não sabe o que lhe espera! Não sabe que vai haver uma outra noite mal sucedida e infrutuosa onde vai se encontrar de mãos vazias, enquanto Jesus, renovará o Seu amor e o Seu perdão, apenas com um olhar.
Não sabe que essa disponibilidade irá levá-lo a avançar para um caminho até conduzir a barca da Igreja em Roma, dando a vida no martírio.
Um dia, chamado a partilhar o destino de Jesus com o mesmo suplício da cruz, compreenderá completamente que avançar para águas mais profundas significa “mergulhar” no Amor de Cristo. Significa, como Igreja, lançar a rede aos homens à mercê do mundo, entre as ondas desorientadas deste nosso tempo e dar esperança aos caídos, acolhimento ao pecador, resgatando a dignidade de quem é marginalizado e excluído, conduzindo-o de novo à única água capaz de dar a vida.
Quanto a nós, significa compreender e assumir hoje a necessidade de testemunhar Cristo morto e ressuscitado, como os apóstolos, como Paulo na segunda leitura (1Cor 15,3-8.11), como Inácio de Antioquia em nossa vida de cada dia, mesmo em meio a lagos “mesquinhos” dispostos a nada oferecer, em meio às redes vazias. Sempre suplicando, como a Igreja sugere a todos, através de Isaías, na primeira leitura (Is 6,1-8): “Eis-me aqui, Senhor, envia-me”!
(Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA, Missionário Inaciano – www.facebook.com/www.inacianos.org.br)

sábado, 30 de janeiro de 2016

PROFECIA OU MILAGRES?


Liturgia do Quarto Domingo do Tempo Comum

Deus é um artista. Na verdade é o artista por excelência! Os artistas, como sabemos, são um pouco diferentes da maioria das pessoas. Têm mais imaginação e criatividade do que o normal.
Imaginemos, então, Deus como a imaginação e a criatividade em Pessoa! Quando lemos a Sua Palavra percebemos que é o amor que move a Sua arte. E o amor de Deus é imenso para cada pessoa!
A liturgia deste Quarto Domingo do Tempo Comum nos apresenta a figura do Profeta como o protótipo do homem de fé. Na primeira leitura, que nos fala de criação através das palavras: “te conheci, te consagrei, te formei”, como expressões do coração de Deus que, consciente da Sua presença e força na vida dos seus, deixa claro que Sua obra, a sua “arte” não é destinada ao fracasso. Pelo contrário, Ele tem a certeza que das Suas mãos sairá uma verdadeira e maravilhosa “obra de arte”.
Os verbos usados na arte da criação exprimem o cuidado, a ternura e o amor de um Deus que deseja tanto a comunhão com a obra das Suas mãos que, na Sua imensa grandeza, tem a arte de se fazer pequeno e frágil, ao assumir a natureza humana.
A missão do profeta é, portanto, viver esta comunhão com o “Artista” que o formou, para ir, ser sinal de esperança e de salvação “entre os seus”, mas especialmente, para mostrar, com a sua atitude de vida, a fé no Deus que o chamou e lhe deu a incumbência de falar em Seu nome.
Mas é preciso cingir a cintura, ou seja, remover qualquer impedimento ao caminho e à missão, como Ele nos fala na primeira leitura (Jr 1,4-5.17-19), e proclamar sem medo, sabendo que Deus, Ele mesmo o acompanha e faz "uma coluna de ferro, um muro de bronze”, sinais da fortaleza construída para vencer uma guerra.
A guerra da qual se fala nesse contexto é uma guerra antiga, iniciada desde o princípio. Trata-se da guerra contra as trevas, do bem contra o mal, da vida contra a morte, sobretudo porque é sabido que a treva ainda hoje se rebela contra a luz, assim como a morte e o mal contra a vida e o bem! Mas o profeta é aquele que “saiu da luz”, aliás, ele mesmo em comunhão com o Deus da luz, é luz.
A Palavra de Deus proclamada no Evangelho (Lc 4,21-30) nos leva para a sinagoga de Nazaré, exatamente no ponto onde São Lucas nos deixou no Evangelho do domingo passado. Jesus está entre as pessoas que O conheciam desde a infância. Ali tinha dito uma palavra forte, retomada no texto do Evangelho deste domingo: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.  
Vamos tentar “entrar” nos pensamentos daquelas pessoas que O escutavam na sinagoga. Imaginemos se isso tivesse acontecido na nossa vizinhança ou no nosso círculo de convivência. De repente, uma pessoa comum, uma pessoa “qualquer” se torna um personagem “famoso”.
Jesus, de fato, naquele contexto era uma pessoa “qualquer”. Entre os poucos habitantes de Nazaré, cidade “sem importância” sob vários aspectos, não havia nenhuma celebridade.
Ele era simplesmente o filho José, o carpinteiro. É exatamente isso que é belíssimo! Deus se fez homem e levou a vida de um homem comum durante trinta anos. Sim, porque sabemos que Jesus não andava pelas ruas de Nazaré, aliás, por nenhum outro lugar, alardeando: “Eu sou o Filho de Deus”, até que um dia partiu para o Rio Jordão.
Depois de iniciar a Sua vida pública, havia começado a fazer coisas das quais a notícia se difundia rapidamente, inclusive na sua própria cidade, entre a sua própria gente, desde palavras e expressões de forte impacto, ousadas e profundas, como também milagres nunca vistos antes, como água que se transformava em vinho.
A reação não poderia ser outra a não ser o espanto crescente. O retorno a Nazaré, portanto, é a manchete daquele sábado. Todo mundo está curioso para vê-Lo. Olhos e ouvidos voltados para Ele. Do sentimento de espanto dos seus conterrâneos, emerge o que é inerente a todos os homens: o "direito de família", de ser concidadão, de pertencer a alguma referência.
Diante da “fama” vem a vontade de dizer que Ele é “dos nossos” e, por isso, nós também vamos tirar algum proveito disso porque, se Ele é, de fato, o homem dos milagres, nós devemos ser os primeiros a receber os benefícios!
Jesus, porém, os desmascara com a Palavra de Deus, chamando-os para a verdade! Aliás, Ele arruína as nossas ilusões egoístas, a nossa maneira de mascarar, como também as nossas mentiras!
Jesus, como verdadeiro Profeta deixa bem claro que, se alguém quiser encontrar a Deus, deve primeiramente tirar da cabeça a ideia de um Deus “faz tudo”, “concerta tudo”, pronto para cada necessidade que me apareça nesta vida, inclusive em detrimento dos outros; um Deus ao meu inteiro dispor.
Pelo contrário, somos chamados a abrir-nos à novidade de um Deus que quer salvar não apenas Israel, os meus amigos, a minha família, o meu grupo, a minha paróquia, mas quer salvar a humanidade inteira!
Nós também, assim como os nazarenos de então, queremos ter em Jesus, um taumaturgo à nossa disposição, pronto para aliviar cada dor, seqüestrando assim a Graça e mantendo-a no cativeiro das nossas necessidades e, às vezes, até de nossos caprichos. Queremos que os projetos de Deus se adéqüem aos nossos porque, na verdade, preferimos os milagres à Sua Palavra! O Evangelho, graças a Deus, não segue as lógicas humanas. Aliás, difere muito delas. É por isso que, geralmente, para o mundo o Evangelho não passa de uma utopia irrealizável, irreal, impraticável, com reivindicações e pretensões ilógicas, e até mesmo que a cruz e o amor são excessivos!
Diante dessa ideia equivocada da Palavra de Deus, fica evidente o conflito entre as leis “de Nazaré” e as leis do Céu!
O Profeta descrito nas páginas das leituras de hoje faz ecoar uma voz que abre brechas nas paredes de qualquer sistema, repetindo incansavelmente "não se acomodem! O homem não vive só de pão: a viúva, o órfão e o leproso são teus irmãos! A tua pátria é o céu! Seja perfeito como o Pai”etc.
É triste ver como o Profeta Jesus foi rejeitado em Nazaré. Mas não é menos triste perceber que também hoje é rejeitado em muitas igrejas, sejam elas quais forem. Isso acontece quando pretendemos que Deus faça as coisas que queremos e não somos capazes de abrir-nos à Sua vontade, que tem um horizonte muito mais amplo e bonito que o nosso.
O caminho do profeta já está traçado: é a cruz! “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o Seu caminho”!  Eis um grande sinal antecipado do que acontecerá na ressurreição, quando nem mesmo a morte O vencerá!
Ele continua a passar pelo meio de nós, porque cada caminho e estrada do mundo é a Galileia, assim como continua a repetir as Suas palavras para que esta geração não seja acusada de ter lançado os seus profetas no precipício, e de ter desperdiçado os seus milagres.
Ali, justamente naquela terra tinha acontecido o maior e mais esperado de todos os milagres: o nascimento do Redentor! Mas não bastava! Que outro prodígio poderia ter sido maior? É claro que quem vê apenas o exterior, não conseguiria compreender.
A decepção deles é grande. Com isso, passam da inveja ao propósito de matá-Lo, procurando eliminar aquele que nos chama ao amor, mas que acaba sendo um incômodo desconforto que agora querem lançar precipício abaixo.
Jesus não resiste a quem não quer acolhê-Lo e, “passando pelo meio deles, continunou o seu caminho”. Eles queriam um sinal exterior, não a sua própria conversão, por isso, indignados, “ficaram furiosos... levantaram-se e O expulsaram da cidade”. Se tivessem boa vontade, teriam preferido e pedido que Jesus ficasse em Nazaré, para o próprio bem deles, como havia acontecido nas outras cidades e estradas da Palestina, e em todos os lugares que precisavam d’Ele.
É bom lembrar que foi sempre a disposição interior e a abertura de coração que abriram caminho aos maiores e mais inesperados milagres.
Como os habitantes de Nazaré, nós também corremos o risco de nos tornarmos uma geração que “desperdiça” os seus profetas, bem como tantas profecias que o Espírito Santo suscitou tanto dentro como da Igreja.
A Igreja também, de fato, às vezes parece ter herdado o trágico destino de não compreender os seus profetas. Sobretudo quando prefere os milagres à Palavra de Deus tirando, assim, o espaço e a relevância que ela tem, e até mesmo julgando inconvenientes alguns dos seus profetas. Qualquer igreja que aja assim, mais cedo ou mais tarde perceberá que está “vazia” de Jesus, como a sinagoga de Nazaré ficou sem a Sua presença, quando dela se retirou. Poderá até estar repleta de gente, mas sem a Sua presença!
Como disse o Papa Bento XVI em certa ocasião, “a Igreja não se faz a si mesma e não vive de si mesma, mas da Palavra que vem da boca de Deus”. Por isso, “quem se põe na escuta da Palavra de Deus pode e deve depois falar e transmiti-la aos outros, principalmente àqueles que nunca a ouviram, ou que a esqueceram enterrada debaixo dos espinhos das preocupações e dos enganos deste mundo” (Mt 13,22).
Com razão, o papa se perguntava se “nós cristãos não nos tornamos, talvez, mudos; se não nos falta a coragem de falar e de testemunhar...”?.
A receita para o sucesso da missão profética nos é dada por São Paulo, num texto que está entre os mais belos e conhecidos do Novo Testamento. O hino ao amor.
Ele nos alerta para o perigo de podermos fazer todas as coisas deste mundo, inclusive ter a plenitude da ciência, possuir as riquezas, conquistar uma grande fé, e não ter o amor. Sem o amor não seremos e não teremos nada!
Experimentemos fazer o exercício com a carta do Apóstolo na segunda leitura (1Cor 12,31-13,13). Vamos substituir a palavra “caridade” pelo nosso próprio nome, perguntando: Eu sou paciente? Eu sou benigno (a)?  Eu sou invejoso (a)? Eu sou soberbo (a)? Eu sou inconveniente? Eu sou interesseiro (a)? ... e assim por diante.
Com certeza descobriremos que estamos longe de corresponder às exigências deste amor.
Mas nós também hoje, nas estradas da nossa própria “Nazaré”, isto é, da trama da nossa vida, do nosso dia a dia, podemos descobrir que também somos chamados a ser profetas, fazendo ecoar a voz de Deus através da nossa própria voz.

O Espírito, então, descerá sobre nós, em nosso dia a dia e então fará da nossa casa o Seu templo; estará em todos os lugares onde a vida celebra a sua liturgia simples e perene, revelando aos pequenos os segredos do Reino. (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano –)