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Pároco Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA.


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terça-feira, 17 de abril de 2012

sexta-feira, 13 de abril de 2012

VER PARA CRER – A LIÇÃO DE TOMÉ

(Liturgia do Segundo Domingo da Páscoa)

Pobre Tomé! Apresentado ao longo dos séculos como o protótipo da pessoa incrédula, cheia de dúvidas; alguém que precisa que sua fé seja confirmada. Ou seja, alguém como um modelo a não ser seguido. Mas será que é assim mesmo? Outro dia eu me questionava: mas, no fundo, qual foi o erro de Tomé? Ou então, Tomé errou, de fato?
Naturalmente por um lado, a partir da resposta de Jesus é possível entender que a atitude de Tomé não foi das melhores. Por outro lado, quando Jesus diz “Bem aventurados os que creram sem terem visto”, certamente não se referia aos outros discípulos, porque eles também não acreditaram que Jesus havia ressuscitado assim tão facilmente.
Além disso, podemos dizer que os apóstolos fizeram a experiência concreta, ao vivo, de Jesus Ressuscitado, logo, então por que rotular a Tomé como o protótipo da pessoa que não tem fé? E os outros apóstolos? Certamente eles acreditavam... mas acreditaram porque tinham visto!
Imaginem Pedro e João, quando Maria Madalena anunciou-lhes que Jesus ressuscitou, por acaso acreditaram imediatamente? Pelo contrário, vão correndo até o sepulcro para comprovar e só então, enxergam o vazio do sepulcro e só assim, acreditam.
Imaginem os dois discípulos no caminho de Emaús. A eles também as mulheres, bem como “alguns dos nossos”, (outros discípulos) tinham dito que Jesus ressuscitou, e tampouco eles acreditaram nas “coisas que ouviram dizer”, até que não O tivessem reconhecido na “fração do pão”!
Então a pergunta é inevitável! Por que pretender que Tomé creia sem ver? Por que ele deveria ser a exceção, nesse caso? Ou não seria melhor chegar à conclusão que é necessário reconhecer que a fé precisa de confirmação, ainda que seja mais ou menos óbvia?
Sejamos sinceros! Quantas vezes nós também nos aproximamos mais de Deus porque a nossa fé é assaltada pelas dúvidas e Ele, ao invés de confirmá-la, nos pede que tenhamos fé, nos pede para crer sem ver? E nós, por outro lado, quantas vezes também não achamos que é pedir demais? Por que outros puderam vê-Lo e nós, não? Eis, então, a pergunta que não quer calar: a necessidade de ver a Deus, de fazer a experiência da Sua presença é natural? Justifica-se?
Todo o Antigo Testamento tem como perspectiva o pedido do Salmo 31: “Mostra-me, Senhor, a Tua face”. Moisés, Elias, Davi etc, esses grandes personagens, homens de grande fé, todos invocaram a Deus para experimentar a Sua presença. Portanto, para fazer a experiência da Sua existência. E por que com Tomé teria que ser diferente? Por que Tomé deveria fazer tamanho salto de qualidade e crer que alguém tinha ressuscitado, sem que pudesse ter visto pessoalmente?
A história o chamou de Tomé, o incrédulo! Eu não estou muito de acordo, a partir do ponto de vista apresentado, e creio que até teria coragem de acusar a história da falta de realismo!
A vida espiritual, quando bem vivida, de modo geral, não pode deixar apresentar este apelo: “Senhor, fazei-me ver, fazei-me sentir a vossa presença, fazei com que eu seja forte na fé”! Ora, nós somos pessoas concretas! Para nós as palavras ajudam e tem a sua serventia, mas não bastam! Nós queremos ver a palavra atuar, queremos tocar, experimentar!
Pois bem, é exatamente isso que Deus quer fazer com os homens. Eu quero dizer, Deus quer viver em comunhão, em integração, porque Ele é amor, é experiência! Por isso, creio que Deus nunca acusará a nenhum de nós quando no grande amor que temos por Ele, amor manifestado quando o procuramos nas diversas circunstâncias da vida, alguém tiver algumas dúvidas sobre Ele! Creio que Ele não é assim. Pelo contrário, deve até achar graça quando vê que alguns gastam tanta energia passando a vida tentando ignorá-Lo e até mesmo baní-Lo da história humana!
Creio que a dúvida de fé seja um grande sinal do fato de que a nossa fé é viva, dinâmica, busca o verdadeiro Deus e não apenas se preocupa em projetar uma ideia fixa de Deus que rapidamente pode se tornar uma prerrogativa de Deus, isto é, quase um ídolo. O crescimento na fé tem como lei fundamental a busca contínua, o rever as próprias convicções sobre Deus, sobre o modo de agir e relacionar-se; o Dele e o nosso. Aliás, isso é próprio do relacionamento de amor.
Enfim, a dúvida é essencial à fé, quando, obviamente, cremos que Deus é o totalmente Outro, o indescritível, incapturável, e não cabe em nenhum dos esquemas humanos.
É claro que o objetivo da aventura da viagem da fé é “o crer sem reivindicar o ver”. Isto se aplica aqui à vida terrena. Mas imagine que o verdadeiro objetivo da fé é exatamente ver a Deus face a face, fazer experiência Dele no Paraíso. Então, viva São Tomé! Viva aquele que teve a coragem de reconhecer, inclusive, diante dos outros que tinha necessidade de ver Jesus, arriscando passar pela história como o incrédulo, como o duvidoso, o incapaz de confiar em Deus, mas que ao agir assim, fez-nos um grande serviço quando “provocou” Jesus a proclamar a cada um de nós, felizes, bem aventurados, que nunca o vimos em carne e osso e, no entanto, cremos n’Ele! Ademais, nas entrelinhas, o que Jesus diz é que os que não o viram e mesmo assim acreditaram, somos muito mais felizes do que aqueles que O viram! Que São Tomé interceda por nós e, pela nossa fé! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PAIXÃO DE CRISTO: TREVAS X REALEZA E LUZ!


(Liturgia da Sexta-Feira da Paixão)
A Sexta-feira Santa é um dia todo especial. Somente hoje a liturgia nos propõe alguns gestos únicos, como no início da liturgia, quando o sacerdote se prostra em silêncio diante do altar; pelo fato de não ser celebrada a Santa Missa, mas uma liturgia especial e contém também o gesto dos fiéis em adoração à Santa Cruz, beijando o crucificado.
Este dia, juntamente com a Quarta-feira de Cinzas, é dia de jejum para os católicos. Pareceria, à primeira vista, um dia de luto. Às 15 horas se recorda a morte do Senhor Jesus na cruz. Ao final da liturgia vespertina do dia anterior, o Santíssimo Sacramento foi “levado embora” pelo sacerdote e a igreja ficou “vazia” e o altar, nu.
Tudo é silencioso até a noite do dia seguinte, o Sábado Santo, que em inglês é chamado de "Black Saturday", Sábado negro. O escuro exprime o sentido profundo da Sexta-feira Santa. Gostaria apenas de sublinhar que não se trata de um escuro de trevas de terror e pavor. É um escuro com “uma luz no fim do túnel”. Isto é, há uma luz de fundo, sóbria e que reflete sobre a Palavra de Deus nesta Sexta-feira Santa.
As leituras, que nos descrevem aquilo que humanamente poderia ser definido como uma completa falência, humilhante derrota e morte, nos conduzem a um horizonte inesperado de luz, vitória e alegria. A primeira leitura, depois de ter descrito o sofrimento e morte do Servo de JHWH (IAVÉ), é concluída com palavras verdadeiramente ricas de esperança e de sucesso: “Eis, o meu Servo será bem sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau. (...) Eles espalhará sua fama entre os povos. Diante dele os reis se manterão em silencio, vendo algo que nunca lhes foi narrado e conhecendo coisas que jamais ouviram (...). Por isso, compartilharei com ele multidões e ele repartirá suas riquezas com os valentes seguidores”.
Descendência, vida longa, a alegria de cumprir a vontade do Senhor, luz e conhecimento, prêmio de recompensa e fim dos conflitos! O que mais se pode desejar? Tudo isso é o desejo de todo o homem, ou melhor, é isso que o homem definiria como “uma vida de sucesso”, ao contrário do fracasso.
O Salmo responsorial segue a mesma lógica. Depois de ter descrito de modo lírico e eficaz a experiência terrível da rejeição, do terror, da marginalização, da depressão e da morte, se abre à mesma visão de luz e de positividade da primeira Leitura, que chega ao final com grande força de confiança em Deus, resultando na experiência da libertação completa, da luz que resplandece no fim do túnel, da salvação no amor. A última estrofe dessa alegre experiência torna-se, finalmente, uma fraternal exortação para nós reunidos para celebrar a Paixão, morte e ressurreição do Senhor: "Fortalecei os corações, tende coragem, todos vós que ao Senhor vos confiais". O mesmo salmista que descreve os seus sofrimentos, torna-se instrumento de exortação à esperança e à coragem.
Na segunda leitura, da Carta aos Hebreus, que fala que "Ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado", "forte clamor e lágrimas" de "morte" e também “por aquilo que sofreu”, ouçamos como palavras dirigidas a cada um de nós, cheias de conforto e consolo: “Aproximemo-nos, então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno”.   A última palavra é, aqui também, confiança, graça, misericórdia e auxílio. Tudo isso é objeto do desejo do coração do homem. Quem tem estas coisas não é um derrotado, mas uma pessoa que possui as coisas fundamentais de uma vida digna da pessoa humana. Todas essas coisas são objetos da bênção bíblica: “Shalom”!
O Evangelho segue a mesma lógica. João, ao contrário dos sinóticos, não fala da agonia de Jesus no Getsêmani, do beijo de traição de Judas, da fuga dos discípulos, do processo diante do Sinédrio, dos ultrajes na casa do Sumo Sacerdote e da humilhação na casa de Herodes; tampouco menciona o escárnio dos espectadores diante da cruz. Não nos apresenta o grito de desespero de Jesus, a escuridão sobre a Terra no momento da morte do Senhor e nem mesmo o fim trágico de Judas.  Ao invés disso, apresenta diante de nós, e apenas João faz isso, diferente dos outros Evangelistas, uma série de flashes da luz no fim do túnel: o gesto de grande Majestade que Jesus faz diante daqueles que vieram prendê-Lo, o diálogo com Anás, sumo sacerdote, sobre a Sua doutrina, a cena tão significativa do “Eis o Homem”!, bem como a discussão sobre a inscrição a ser posta na cruz: Jesus de Nazaré Rei dos judeus.
O relato da Paixão no Evangelho de João, momento da máxima “derrota” de Jesus, apresenta alguns traços inconfundíveis de realeza e de luz. Aqui também se repete o mesmo dinamismo já visto nas outras leituras. Para João, Jesus crucificado é Jesus Glorificado. Ainda que o Domingo de Páscoa venha depois da Sexta-feira da Paixão e ainda que a Ressurreição venha, cronologicamente, depois da morte, parece que há uma dimensão de simultaneidade na liturgia de hoje. Isto é, a derrota sofrida pelo Senhor, já tem em si mesma um sentido de vitória. A Sexta-feira Santa já contém, em si mesma, a luz da Páscoa.
Peçamos ao Senhor que a luz da Páscoa ilumine a escuridão de todas as situações de sofrimento, solidão e tristeza. Que o Senhor Jesus ajude a todos os cristãos a acolherem a Sua Palavra com sincero coração, de modo que possamos viver de modo bom, correto e justo os momentos difíceis de escuridão, que invariavelmente se apresentam no percurso da vida humana. (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

PALAVRA, GESTO E EXEMPLO!

QUINTA FEIRA SANTA
(Liturgia da Quinta-feira Santa)

As pessoas que tem como trabalho, responsabilidade habitual ou mesmo esporádica ensinar, pregar, ministrar palestras, participar de debates de mesas redondas, às vezes tem que encontrar alguma técnica estratégica para serem convincentes ou persuasivos. É quando recorrem, talvez, às peripécias dialéticas ou a aforismos fulminantes, persuasivos para convencer os ouvintes das suas próprias ideias.
As coisas podem começar a se complicar quando, ao invés de convencer os ouvintes a mudar as próprias ideias, aquele quem ensina, educa ou debate, sente que tem como missão não apenas fazer os outros mudarem de ideia, mas mudar a própria conduta de vida.
Mas isso só é possível, isto é, só se consegue alcançar se, neste caso, o “mestre” for honesto consigo mesmo, dando o bom exemplo, sem ostentação, é claro!
Na verdade, essa é uma tarefa bem complicada, pois o que está em jogo é a credibilidade de quem ensina ou preside, se não confirmar com atitudes o que diz com as palavras, embora às vezes, seja necessária  uma vida inteira para sustentar a credibilidade das próprias palavras.
Faço aqui uma analogia entre esta situação apresentada como motivação para a nossa reflexão e o que aconteceu na noite de quinta-feira em Jerusalém em torno de uma mesa, embora não fosse uma mesa redonda, tendo Jesus ao centro.
O relato de João nos diz, repetidas vezes, que Jesus “sabia” o que iria lhe acontecer no dia seguinte. No entanto, não aproveitou o fato de conhecer os acontecimentos do dia seguinte para fugir ou precaver-se. Ao contrário, aproveitou a ocasião, “jogando a última carta”, a última Ceia, dando o exemplo de como se ama, de fato! Maior e mais convincente exemplo do que esse, mais profundo, impossível! “amou-os até o fim”.
Amar com palavras não é convincente!  Vestir um avental e começar a lavar os pés dos doze, inclusive do amigo traidor, isso sim é amar, de fato! Falar, durante o jantar da sua entrega na morte e da traição dos amigos mais íntimos, assunto bem indigesto para um jantar, isto sim, é amor como argumento! E depois, à conclusão, uma repreensão velada e um breve sermão: “Agora vós não podeis compreender... se eu a quem vós chamais de Mestre, e eu o sou, vos fiz isso...”. Não deveria ser difícil concluir...
Naquela noite, Jesus instituiu dois sacramentos, isto é, o Sacramento da "fraternidade" e da "Eucaristia", que a Igreja, na sua sabedoria, unificou em um único Sacramento, na Eucaristia. Parecer querer dizer que não é possível alimentar-se à mesa da fraternidade universal, sem nutrir a alma à mesa da Eucaristia.
Daquele momento em diante tudo muda no relacionamento homem-Deus.  Esse Deus que sai, por puro amor, livremente da Sua eternidade sob o semblante de Jesus para redimir o mundo, quis indicar a maneira “concretamente salvífica” de viver as relações humanas. Ele fez isso no meio de um “jantar” parecendo querer sugerir que , assim como as “boas relações” nos fazem viver bem e nos fazem crescer no amor, do mesmo modo a relação íntima com Ele é a alma de todo o viver em relação e com relação entre as pessoas e o universo inteiro. Eu quero dizer: uma relação funda e estabelece a outra!
Ao celebrar a Ceia do Senhor é bom lembrar como Jesus deu exemplo de sua conduta de vida: “O meu alimento é fazer a vontade do meu Pai”, e também como nos ensinou a rezar: “o pão nosso de cada dia nos daí hoje”!
É bom lembrar porque uma linha estreitíssima liga as duas expressões: a vontade do Pai é que todos se amem como irmãos e o comer o pão, nas mais simples das relações quotidianas, inclusive quando parecem relações casuais e mesmo quando não estamos sentados à mesa como amigos, ou ajoelhados diante da mesa da Eucaristia, mas em pé, trilhando os caminhos deste mundo; e também quando essa comunhão fraterna dos “sentados” ou dos que estão “em pé” pelas estradas da vida, como dissemos, constitui muito mais um problema a ser resolvido do que uma realidade a ser vivida; é bom lembrar que uma coisa está ligada à outra!
Lembremos também que a relação com os outros é como a arte de cozinhar: em cada prato cada um encontra o tempero que, ao cozinhar, ali foi colocado, inevitavelmente! Não adiantará muito mudar de lugar na mesa, tampouco trocar de prato! Assim como de nada adiantará mudar de caminho ou de igreja. A única coisa que valerá à pena fazer é mudar o modo de estar sentados e a maneira de caminhar com os irmãos, certos de que, o que realmente faz as mudanças acontecerem é mudar de atitude nos relacionamento amorosos, fraternos, familiares, descendo do pedestal do próprio eu, assim como nos ensinou o Mestre numa outra ocasião: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).

PAIXÃO DE CRISTO - MISSIONÁRIOS INACIANOS

EM 03 DE ABRIL - NO PQ VITÓRIA RÉGIA