CONGREGAÇÃO MISSIONÁRIA DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA - MISSIONÁRIOS INACIANOS
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domingo, 21 de abril de 2013
sábado, 20 de abril de 2013
“NINGUÉM VAI ARRANCAR AS OVELHAS DAS MINHAS MÃOS”
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(Liturgia do Quarto Domingo da Páscoa)
Todo os anos,
neste quarto domingo da Páscoa celebramos o domingo do Bom Pastor.
É uma celebração
que volta, mas Ele não volta porque, na verdade, nunca nos abandona! Pelo
contrário, está sempre pronto a sustentar-nos, está bem perto de cada um de
nós, conduzindo-nos de novo às pastagens da vida eterna e dando a cada um de
nós a certeza inabalável de sermos amados.
Isso porque,
desde o primeiro momento em que celebramos a luz da vitória pascal, no profundo
mistério de nossos corações, nasce a necessidade de amar e ser amado.
A necessidade de
amar e ser amado é o instinto primordial do homem, que o coloca em relação com
seu semelhante. É isso também que dá à nossa vida diversos sentimentos tais
como, paixões, desejos e expectativas etc.
O esposo, o pai,
a mãe, o filho ou o amigo, enfim, cada pessoa que enche a nossa vida de significado
é, ao mesmo tempo, sinal e limite de uma plenitude que todos aspiramos, mas que
só Deus pode nos dar.
Neste tempo da
Páscoa, depois de termos sido confrontados com o Ressuscitado que aparece aos
seus discípulos, e enche de novo a “rede de suas vidas”, hoje Ele aparece a
cada um de nós através da imagem belíssima do Bom Pastor.
O Pastor e Suas
ovelhas nos reportam, de fato, a um mundo distante que, justamente porque está
longe, é trazido a nós para embelezar e a idealizar a vida.
Contudo, na
verdade, sabemos que a vida de um pastor da Palestina nas areias do deserto de
Judá não tinha nada de poético. Era rude, dura e às vezes, até mesmo perigosa.
No entanto, o
que nos interessa é captar e acolher a paz e a ternura que exalam das palavras
de Jesus num mundo subjugado pela lei do barulho e da agitação, da crise e da
dispersão.
Quando se está
acostumado a uma vida frenética, sujeita à tensões de todos os tipos, é difícil
não desejar uma vida diferente, governada por outros ritmos, onde se reencontra
uma paz que parece tão distante. A paz de quem sabe colocar-se em silêncio e
escutar.
Nos poucos
versículos do Evangelho de hoje (Jo
10,27-30), fala-se, de fato, de vozes e de escuta e, portanto, celebra-se
indiretamente a importância do silêncio, levando-nos a pensar que sem o
silêncio não se pode escutar.
Numa sociedade
como a nossa, em que cada um é assediado quase a todo instante pelas palavras,
chamadas no celular, câmeras de vigilância, imagens do facebook, toques do sms
ou do twitter, infelizmente, até mesmo na igreja e durante a missa, é preciso
redescobrir a importância do silêncio.
Principalmente
neste tempo em que a maior parte dos políticos, por exemplo, parece escutar
apenas a sua própria voz, muito mais até do que a voz dos apelos legítimos da
sociedade, das exigências da verdade e da justiça, é preciso lembrar o que, de
fato, significa deixar-se guiar por Quem, por amor a nós, não usa apenas
palavras, mas dá a Sua própria vida.
Significa fazer
a experiência de fazer tudo à nossa volta calar e deixar Deus falar. E, assim, é
possível descobrir que Deus nos revela a Sua voz e que fala diretamente ao
coração de cada um de nós, porque ama a cada um de modo pessoal.
É como a
experiência de Madalena, de Tomé, dos dois discípulos de Emaús, de Pedro e de
João; Ele fala a mim e me conhece.
O “conhecimento”
na linguagem bíblica não deriva de um processo puramente intelectual, mas de
uma “experiência”, de uma presença, necessariamente, fundada no amor.
O Bom Pastor não
nos conhece formalmente, mas faz experiência de nós, conosco, de mim, comigo.
Ele dá a mim a “vida eterna”, portanto, não só a vida física, nem somente a
vida além da morte, mas a participação na sua própria vida do Seu ser Filho de
Deus.
Eis aí a grande
mensagem da Páscoa, confirmada pela segunda leitura do Apocalipse (Ap 7,9.14b-17). Trata-se do Pastor que
se fez Cordeiro por amor a nós, ligado de tal modo à nossa humanidade, a ponto
de não poder abandoná-la jamais.
As suas mãos
estão unidas a nós muito mais fortemente do que estavam pregadas na cruz e
ninguém nunca poderá arrebatá-las, isto é, separar-nos Pai. “Ninguém as arrebatará da minha mão”:
Ninguém, nem os anjos, nem os homens, nem a vida, nem a morte, nem o presente, nem
o futuro, nada jamais poderá nos separar do amor de Cristo, confirma o Apóstolo
Paulo (Rm 8,38).
A força e a
consolação desta palavra absoluta, isto é, “ninguém”, é rapidamente ligada a “arrebatará”.
O verbo não está no presente, mas no futuro, indicando uma história completa,
longa, assim como o tempo de Deus.
O homem constitui
uma “paixão” para Deus, a ponto de atravessar a eternidade. “Ninguém as arrebatará da minha mão”; “ninguém
pode arrebatá-las da mão do Pai”. Trata-se das mãos que saíram do céu e que
lançaram os fundamentos da Terra, mãos do oleiro sobre a argila, mãos do
Criador sobre Adão adormecido para dar vida à Eva. São mãos e braços abertos
pregados na cruz para o abraço que nunca mais terá fim. Ninguém nos separará
dessas mãos!
São palavras de
coragem, sobretudo nos momentos de provação e de sofrimento. É a experiência
dos tantos testemunhos de fé de que fala o livro do Apocalipse.
Uma imensa
multidão proveniente de todos os povos. São testemunhos em pé, portanto, como o
Cordeiro, diante do Cordeiro, isto é, em relação com Cristo, envoltas em vestes
brancas, portanto, participantes da ressurreição e trazem palmas nas mãos,
sinal da vitória sobre o mal e da plenitude da vida.
Sublinhemos essa
particular “lavagem” das vestes dessa multidão, isto é, vestes que permanecem
cândidas, brancas e puras, embora tenham passado pela cor vermelha do sangue do
Cordeiro que é Cristo. É o grande sinal de que, se nos entregamos, de fato e
totalmente a Deus, a grande provação da dor pode tornar-se uma porta para a
alegria da visão de Deus. Isso mesmo, como crianças nos agarrando fortemente
naquela mão que nunca nos deixará cair.
Quanto a isso é Santo
Agostinho que, no seu comentário sobre o Salmo 39 nos tranqüiliza e ao mesmo
tempo nos adverte: "O Senhor cuida
de ti, fique tranqüilo. Aquele que te fez te sustent; não caia jamais da mão do
teu criador. Se caíres das mãos do teu Criador, te esmagarás. Sim, nas tuas
mãos entrego minha vida". Então, o próprio Deus virá ao nosso encontro
enxugando as lágrimas dos nossos olhos.
Que Desça,
então, sobre cada um de nós, essa antiga bênção irlandesa. "Que o caminho
se estenda sempre diante de ti! Que o vento sopre nos seus ombros e que o
orvalho molhe a relva sobre a qual pousas teus passos. Que o sorriso brilhe em
teu rosto e o céu te cubra de bênçãos. Que uma mão amiga possa enxugar as tuas
lágrimas na hora da dor. Que o Senhor Deus possa segurar-te na palma de Sua
mão, até o nosso próximo encontro”. (Frei
Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – formador@inacianos.org.br – www.inacianos.org.br).
sexta-feira, 12 de abril de 2013
É O SENHOR!
(Liturgia
do Terceiro Domingo da Páscoa)
Neste Terceiro Domingo da Páscoa
da Ressurreição do Senhor, creio que a primeira consideração a fazer, a partir
das leituras sugeridas pela liturgia, diz respeito à dificuldade que temos para
crer! No domingo passado foi Tomé quem nos ajudou a compreender essa realidade.
Contudo, mesmo diante da nossa
dificuldade, Jesus se manifesta! Sempre de novo! Aliás, a manifestação de Jesus
no Evangelho de hoje é realizada pela terceira vez e, certamente, não é a
última. Antes, havia se manifestado às mulheres, depois, por duas vezes,
manifestou-se no cenáculo.
Nessa fase pós-pascal, os
discípulos precisavam ser confirmados na fé. Hoje podemos perceber que Deus nunca
rejeita um pedido a partir de uma dificuldade de crer, se tal dificuldade
estiver unida ou for oriunda de um desejo sincero, e não de um desafio soberbo
à Sua divindade!
A manifestação deste Terceiro
Domingo se dá no lago de Tiberíades. Depois ainda se manifestará aos dois
discípulos de Emaús. A certeza transmitida por esses eventos é esta: o Senhor
ressuscitou! Quer dizer que está vivo e, ressuscitado, ainda hoje se manifesta,
e se manifestará sempre de novo diante de qualquer desejo sincero que brota do
coração de quem quer crer n’Ele.
Jesus, na verdade, não brinca de
“esconde esconde” conosco, como quem, ora aparece, ora desaparece. Por que um
Deus que, desde o início dos tempos quer relacionar-se conosco, deveria se
esconder? Um Deus que, na plenitude dos tempos, se manifestou concretamente em
nossa carne humana? Por que deveria se esconder um Deus que nos salvou e
manifestou o Seu amor assumindo no Seu corpo humano todo o sofrimento que o corpo
humano pode suportar, mostrando-se com os sinais da Paixão no Seu verdadeiro
corpo ressuscitado no dia da Páscoa? Agora que Jesus ressuscitou, por que Deus
deveria negar deixar-se ver aos que procuram imitar na vida as suas atitudes e
aos que desejam seguí-Lo?
Nós existimos mediante um corpo e
o nosso corpo é feito para interagir com a realidade através dos nossos
sentidos. É por isso que o ser humano tem um desejo profundo de ver, sentir,
tocar.
De fato, acabamos de constatar
essa realidade na Palavra proclamada no domingo passado, através da frustração
e da pretensão que Tomé tinha: “se eu não
vir... se eu não tocar...”.
De vez em quando constatamos a mesma
necessidade de Tomé em nossa própria vida. A mesma tentação dos que
compareceram na sexta feira da Paixão no Calvário, parece também, de vez em
quando, atingir o centro da nossa fé: “Desce
da Cruz e acreditaremos em ti”. Mas, uma vez que o Cordeiro foi imolado, nós
não vemos Deus daquela mesma forma!
O que queremos e buscamos, na
verdade, é ver um Deus que afirma a Sua presença e o Seu poder através de
“efeitos especiais”. É uma lógica que quase chega a seguir as exigências da
alta tecnologia do cinema nas apresentações em 3D. Aliás, as manifestações em
três dimensões já não são mais suficientes. A tecnologia cinematográfica já
prepara o desenvolvimento necessário da tecnologia para as exibições em 4D. As
megaproduções hollywoodianas já estão trabalhando em filmagens que envolverão todos
os sentidos do espectador.
Mas Deus não é adepto dos efeitos
especiais, mesmo que tenha nos criado com a necessidade que o corpo tem de
experimentar a realidade através dos sentidos. Não.
“Eu,
João, vi e ouvi a voz de
numerosos anjos, que estavam em volta do trono, e dos Seres vivos e dos
Anciãos”, proclama o Apocalipse de São João na primeira leitura (5,11-14).
Ora, se a vida é feita de
experiências, a ressurreição também é e, como a relação com o outro, a relação
com Deus também é validada pelo vê-Lo, ouvi-Lo, tocá-Lo. Não devemos
contentar-nos apenas em acreditar que Deus exista. Isso, de fato, não seria
crer! Não seria fé!
Fazer experiência é, portanto, imprescindível
para uma fé que nos leve ao relacionamento com Deus.
Quando essa experiência não
acontece, nossa “fé” é tímida e medrosa, nossa esperança é fraca e o nosso
testemunho do amor, é morno e opaco.
De fato, uma coisa é crer que o
amor existe, e outra coisa, muito diferente, é fazer a experiência de viver o
amor, de estar apaixonado!
Devemos ousar mais! Muito mais!
Não podemos desistir de ver, ouvir e tocar Deus. Pelo contrário, procuremos
fazer uma experiência profunda e verdadeira de Deus. Trata-se de provar e
“degustar” o seu amor! Caso contrário, de quais fatos nós seremos testemunhas
como o foi Pedro e os demais, de acordo com a primeira leitura (At 5,27b-32. 40b-41)?
Ou, como poderíamos dizer: “Transformastes o meu
pranto em uma festa” como reza o salmista (Sl 29), se não fizermos a
experiência da Páscoa?
Já dissemos que Deus
não é adepto de efeitos especiais como os do filme em 3D ou do futuro 4D. Ele se manifesta de modo simples, imprevisível
e autêntico, dando-Se a conhecer sempre de modo novo e diferente, ainda que
seja sempre o mesmo!
E, porque Jesus se manifesta, é
preciso reconhecê-lo! “Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro:
“É o Senhor! Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa,
pois estava nu, e atirou-se ao mar, como proclama o Evangelho (Jo 21, 1-19).
A constatação de João e a atitude
imediata de Pedro de atirar-se na água tem muito a nos dizer. Quer dizer, por
exemplo, que não é possível viver uma fé que não acende e ilumina as nossas
relações. Denunciam que não é esperança verdadeira limitar-se aos ritos apenas,
mas que não aquecem a vida.
Chega de um tipo de caridade não
“assa peixe” e não leva os demais a trazerem um pouco do que “pescam” para saborear
peixe assado! Não é mais possível continuar a pescar com “efeitos especiais”
que, na verdade, não “pescam” nada, mas apenas vislumbram e empolgam! É urgente
querer e buscar encher as redes fazendo a experiência de “atirar-se no mar”
obedecendo a Palavra de Deus e o ensinamento de Pedro. É preciso escutar a voz
do Senhor que pergunta também a cada um de nós se o amamos, não obstante as muitas
vezes que o renegamos, assim como também o fez o próprio Pedro.
Ouçamos a Sua voz que nos
confirma no seu amor. Sigamos o Ressuscitado, não com as nossas próprias
forças, mas com a experiência e com a força do Seu Amor. Reconheçamos a Sua
presença manifestada nesta Eucaristia; nos sacerdotes que pregam e que nos fazem
escutar as Suas Palavras. Vamos reconhecê-Lo no irmão e na irmã, no próximo;
nesta paróquia, nesta Igreja, no Papa, nos seus ministros, e acima de tudo, na
normalidade e no quotidiano imprevisível.
Mesmo nos momentos mais difíceis,
no trabalho e na família Ele se faz presente e espera que O reconheçamos!
A razão de ser do cristão e o que
o faz, não só levar o nome, como nos ensina Santo Inácio, Mártir, mas o ser, de
fato, não é uma vida caracterizada pelo bem estar e pela ausência de problemas,
crises ou dificuldades.
Uma vida autenticamente cristã é
caracteriza pela Sua presença que se manifesta na vida de cada pessoa humana. É
nessa experiência que podemos encontrá-Lo e reconhecer a nossa semelhança com
Ele, através da bondade, do amor, da verdade e do perdão. Então poderemos dizer
como Pedro: “Senhor, tu sabes tudo! Tu
sabes que eu te amo”!
Ele não exige que prometamos como
Pedro um dia fez: “Eu te seguirei,
Senhor, aonde quer que vá”! Aliás, sabemos muito bem como terminam esses
propósitos que já fizemos tantas vezes e com tanta convicção.
Digamos apenas, eu te seguirei,
Senhor. Apenas isso! Mesmo que seja sem palavras, mas com as nossas atitudes. O
Senhor sabe de tudo o que precisamos, e Ele preparará para nós, de acordo com a
nossa “fome”, o banquete que precisamos, seja com peixes sobre as brasas ou com
o Seu perdão, Sua bênção e Sua paz. Ele se fará presente! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – formador@inacianos.org.br – www.inacianos.org.br).
sexta-feira, 5 de abril de 2013
A PAZ ESTEJA CONVOSCO
(Liturgia
do Segundo domingo da Páscoa)
“Oito
dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé
estava com eles”. É
impossível não atualizar espontaneamente a página do Evangelho de hoje (Jo 20,19-31). Justamente porque oito
dias depois da Páscoa os cristãos se reúnem de novo na Igreja. Passou-se oito
dias, que para a liturgia são como um único dia, isto é, o grande dia da
Páscoa.
Depois de termos vivido os
intensos ritos da Semana Santa, retomamos as nossas atividades normais, a vida
em família, o trabalho etc.
Mas, como tudo é muito recente,
principalmente tudo o que nos preparou para a Páscoa e a própria celebração da
Páscoa, nos permite uma pergunta, apenas uma semana depois. O que permaneceu em
nós, de tudo o que celebramos? O que, da Páscoa, de fato, ficou em nós? A luz da
Páscoa abriu em nós um novo espaço, livre pela fé, pela esperança, para amar
com um dinamismo renovado?
Já na primeira semana depois, é
possível colocar a força da Páscoa em nós, à prova. Porque a verdade dos ritos
que celebramos, só é possível verificar no dia a dia vida. Porque é o quotidiano
que coloca à prova a nossa fé em Jesus ressuscitado.
Como é possível crer na vitória
da vida sobre a morte quando a maior parte das pessoas pensa egoisticamente
sobre si mesmas? Como
é possível crer, quando parece que a satisfação das necessidades da vida só podem
ser satisfeitas pelo ato de consumir sempre mais, ignorando que o meu próximo, talvez,
mal está conseguindo sobreviver? Como é possível crer quando o cansaço, o medo
e a falta de confiança é que guiam as nossas atitudes?
“Oito
dias depois... Tomé estava com os demais discípulos”. É preciso repetir a notícia
porque cada um de nós que retorna à igreja oito dias depois para celebrar
sempre de novo a Páscoa, traz dentro de si os traços de Tomé.
Ele queria ver e tocar aquele
Jesus que tinha visto, de longe, pregado na Cruz. Nós, talvez, mesmo sem
verbalizar, podemos questionar para que nos serve crer no Senhor Ressuscitado, se
isso não produz efeitos concretos em nossas vidas e na vida das pessoas com
quem convivemos? Pode ser que, assim
como Tomé, estejamos à espera de alguém que nos dê uma resposta satisfatória.
Na verdade, são as leituras deste
Segundo Domingo de Páscoa é que podem nos ajudar a mudar o nosso modo de
entender o que é a Ressurreição e o que significa, de fato, a fé no
Ressuscitado.
Maria tinha ido ao sepulcro e o
havia encontrado vazio. Pedro e João constataram. Os demais discípulos, porém, ainda
estavam imersos nas sombras do medo e da desilusão. É nesse contexto que Jesus se
faz presente de maneira totalmente inesperada, e os saúda com o dom da Paz.
Jesus os reconhece novamente como
pessoas dignas de amizade e de estima, mesmo que o tenham abandonado nos
momentos em que mais precisava que eles fossem amigos e fiéis, na Sua Paixão. Depois que permitiu ser reconhecido com os sinais da morte,
envia-os para levar aos outros o anúncio do Ressuscitado, e sopra sobre eles o
Espírito. Trata-se do sopro divino, como aquele do Criador que dá vida nova,
para que possam perdoar os pecados, levando a vida do Ressuscitado onde há
morte.
Neste quadro, portanto, a ressurreição é Jesus fazendo-se presente
vivo no meio dos seus; ressurreição é Jesus reatando com eles a aliança, encarregando-os
de continuar a sua própria missão.
Lançando um olhar mais profundo
para o antes e o depois da vida dos discípulos, é impossível não constatar que
a fé no Ressuscitado produz uma grande transformação que, na realidade,
constitui a passagem do medo inicial à alegria que nasce ao ver Jesus e se
exprime também no ato de darem, depois, o testemunho desse encontro a Tomé que não
estava presente no primeiro encontro.
Pobre Tomé! É tradicionalmente
visto como o símbolo da pessoa cética, daquele que crê somente naquilo que vê. Mas
o que fizeram de diferente os outros discípulos? Eles viram e acreditaram! E Tomé
quer fazer exatamente a mesma coisa!
De fato, Tomé não é melhor nem
pior do que os outros discípulos, mas representa, ou melhor, personifica a
dificuldade de crer, que há em todos nós, que convive lado a lado com a fé
sincera e que não é vencida uma vez por todas mas, pelo contrário, que volta e
meia nos rodeia e nos “cutuca”.
Tomé simboliza a nossa necessidade de provas evidentes, que nos
ajuda a evitar o problema da parcialidade, da visão nublada e também do
problema que é confiar numa promessa que ainda não se cumpriu. Portanto, é Tomé
quem torna evidente o difícil caminho da fé em Jesus Ressuscitado.
O fato de Jesus estar vivo é tão sério,
que Ele se mostra aos seus discípulos uma segunda vez, oito dias depois, quando
dá, mais uma vez, a Sua paz, porque sabe que temos necessidade dela sempre
novamente. É tão importante que Ele dedica-se, desta vez, inteiramente a Tomé. Parece
até que nesse momento até se esquece dos outros dez, exatamente como o pastor
que se preocupa com aquela única ovelha perdida.
Jesus não despreza a necessidade
que Tomé tem de tocá-Lo! Oferece-lhe as mãos e o lado.
Mas ver Jesus já é o bastante
para Tomé! Isto é, aquilo que faz com que ele creia, o que o leva a ter fé é
ver que Jesus está ali por ele, que não o reprovará pela falta de fé, que o ama
assim como ele é. É dessa experiência que nasce a belíssima profissão de fé que
nós repetimos tantas vezes: “Meu Senhor e
meu Deus”!
Mas Jesus não se fez presente
entre os seus somente por causa de Tomé. Ele cuida e se preocupa também de
todos os que viriam depois dos primeiros discípulos, para os quais a fé nasceria
só pelo ouvir os depoimentos das primeiras testemunhas oculares. É para eles, ou melhor, para
nós, que Jesus diz: “Bem aventurados os
que creram sem terem visto”!
A ressurreição é Jesus vivo no meio dos seus discípulos, presente
na comunidade dos que n’Ele crêem. É Jesus que lembra até dos que um dia virão
a crer, inclusive daqueles que, como Tomé, não estão presentes e, por isso
mesmo, tem e terão mais dificuldade para crer.
O ato de crer na ressurreição
e ou no Ressuscitado não depende de “ver e tocar Jesus”. É dar crédito ao testemunho
daqueles que, tendo-O encontrado, mudaram as suas próprias vidas, passando do
medo à alegria, da incredulidade à fé!
As testemunhas viram os sinais
que Jesus realizou e, a partir da ressurreição, O descobriram como sinal da
vitória da vida sobre a morte e, por isso mesmo, deixaram o testemunho por
escrito nos Evangelhos que, às vezes, levamos em procissão e beijamos depois da
leitura, com toda reverência, não ao livro de papel exatamente, mas ao
Ressuscitado que ele “contém”.
Jesus não aparece mais visivelmente
a nós hoje, mas temos o Evangelho que guarda a memória dos seus sinais e das
suas palavras. Temos a Eucaristia que contém e comunica o sentido da Sua morte e
da Sua vida; temos o mandamento novo do amor que nos distingue dos demais e nos
identifica como aqueles que conheceram Jesus Ressuscitado!
Hoje também a ressurreição
continua a acontecer. É por isso que a fé dos discípulos e de Tomé pode nascer
e viver em nós. Hoje também o nosso jeito de viver, na família, no trabalho, nos
diversos meios sociais e eclesiais pode fazer a diferença, assim como a
passagem de Pedro fazia a diferença, a ponto de muitos buscarem, nem que fosse
tocar a sua sombra, como nos revelou hoje a primeira leitura (At 5,12-16). A ressurreição aconteceu
historicamente, mas não pode ser “vista” e compreendida, senão através da
transformação que é capaz de acontecer em nós, quando passamos da desconfiança
à força da fé, do desespero à coragem e do egoísmo à abertura na direção dos
outros. (Frei Alfredo Francisco de
Souza, SIA – Missionário Inaciano – formador@inacianos.org.br
– www.inacianos.org.br).
quarta-feira, 3 de abril de 2013
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